SÃO MIGUEL: UM PARAÍSO AMEDRONTADO


O município de São Miguel do Gostoso, a 102 km da capital potiguar, sofre com a insegurança. Considerado o terceiro pólo turístico do Rio Grande do Norte, a cidade do Litoral Norte, que até a pouco tempo era pacata e tranqüila, hoje vive uma realidade de constantes roubos, furtos e arrombamentos de propriedades privadas. De acordo com o comandante do destacamento da Polícia Militar em Gostoso, Sidney Campos, nos últimos meses as ocorrências de violência têm aumentado na região. O caso mais grave ocorreu no dia 26 de novembro, com registro de roubo, seguido de morte. O rapaz que acompanhava a vitima do roubo foi alvejado e morreu no local. O assassino foi preso em sua casa, em São Miguel do Gostoso. Com ele foi encontrado R$ 8mil em dinheiro e outros objetos de valor que já haviam sido roubados em outros arrombamentos. Atualmente, apenas sete policiais compõem o quadro de segurança no município. Dois estão afastados por licença médica. Em sistema de escala, em média, dois soldados são destacados diariamente para policiar a cidade. Com as folgas, sobram poucos para vigiar as ruas. A reportagem da TRIBUNA DO NORTE foi conhecer essa realidade e encontrou o sargento Sidney, sozinho no posto policial, montado em uma residência simples, na Rua dos Tubarões. "As grades que você vê na porta, a pintura, o banheiro reformado, o ar-condicionado do alojamento; tudo isso foi aplicado com o dinheiro dos policiais lotados aqui", afirmou. Até mesmo equipamentos, como lanternas, são compradas com dinheiro que sai do bolso dos soldados. Sem reforço, Sidney se mantém trancado dentro do posto policial, fazendo até mesmo o trabalho da Polícia Civil, fazendo o registro de boletins de ocorrência e encaminhando para a delegacia mais próxima, em Touros. "Aqui eu coloco em risco a minha segurança. Para ser chefe de polícia por aqui é preciso ter coragem e enfrentar as ameaças de morte sem medo", disse. Segundo ele, quando acontece uma ocorrência mais grave, o reforço policial vem do município vizinho: Touros. "Somos cobrados pela população com relação à investigação. Não entendem que somos polícia ostensiva e não consideram as prisões que já realizamos por arrombamentos e roubos", colocou Sidney. Segundo o comandante, na maioria das vezes esses arrombadores são menores de idade e logo são liberados e postos em liberdade novamente. No posto policial, uma cela recebe presos antes de encaminhar para a delegacia de Touros. De acordo com o comandante, muitas vezes, é preciso manter os detentos no local por alguns dias. "Hoje, por exemplo, estamos sem viatura. As duas estão em conserto, em Natal. Qualquer ocorrência, vou no meu carro pessoal", informou. Um menor de 14 anos de idade, que esfaqueou o zelador de uma escola na semana passada, aguardava o carro para ser transferido para Natal afim de se restabelecer. A falta de telefone fixo também é outro problema da unidade. "Quando o sinal da operadora cai, é um aperreio aqui no posto. Tudo pode acontecer", finalizou o sargento.

Nova gestão quer mudanças na segurança
Está agendado para esta quinta-feira,13, um encontro entre a prefeita eleita de São Miguel do Gostoso, Fátima Dantas, e empresários do município do Litoral Norte com os comandantes da Polícia Militar e Polícia Civil do RN. O coronel Francisco Canindé Araújo, comandante da PM, e Fábio Rogério, delegado geral de Polícia Civil estão disponíveis para dialogar às 15h30, na sede da Degepol. De acordo com a prefeita eleita, Fátima Dantas, vários projetos, como a instalação de câmeras de vigilância em pontos estratégicos do município, estão sendo estudados e precisam ser elaborados em consonância com o aumento de efetivo da Polícia Militar e Civil no município. "Gostoso não conta sequer com uma delegacia. Do jeito que está não podemos permanecer. Se não estivermos empenhados, como gestores, em resolver a questão, isso não vai ser resolvido, se depender do Governo do Estado", cobrou. O atual prefeito, Miguel Teixeira, disse que as cobranças relacionadas ao aumento do efetivo policial foram frequentes em sua gestão. "É um ciclo vicioso. Chega o veraneio e a operação Verão diminui o índice de ocorrências. Mas tudo volta a mesma com o fim do aparato", disse. A TRIBUNA DO NORTE entrou em contato com o coronel Francisco Araújo que confirmou a sua presença na reunião na Degepol.

Empresários temem queda no turismo
Principal fonte de renda do município, o turismo emprega 2,5 mil pessoas em toda a cidade de São Miguel do Gostoso. O número é metade de toda a população local, o que simboliza a importância da atividade para o desenvolvimento do município. Para Emanoel Neri, um dos precursores do turismo na região, além de amedrontar a população local, a onda de crimes na cidade é uma grande ameaça ao turismo local. "O que seria de Gostoso se não fosse o turismo? Se isso não for combatido a tempo, nosso turismo corre o risco de entrar em colapso e trazer a miséria para a cidade", acredita Neri. Segundo ele, o pedido por mais segurança é urgente. De acordo com Rui Mazurik, presidente da Associação dos Empreendedores de São Miguel do Gostoso, o município conta com 50 pousadas, 60 restaurantes e bares, além de mercadinhos e outros comércios, como farmácias e lojas de artesanato. "Tudo isso corre risco sem policiamento", disse. Rui chegou a encontrar-se com a governadora do Estado, Rosalba Ciarlini, esta semana, e cobrou a atenção das autoridades para a resolução do problema. "Ela foi muito atenciosa e garantiu que analisaria a questão", disse Rui. A intenção dos empresários é de firmar parcerias público-privadas para garantir o policiamento ostensivo durante o ano inteiro.

Insegurança atinge outros municípios do Litoral Norte
Pitangui e Graçandu são praias do Litoral Norte muito visitadas durante o veraneio. Segundo moradores da região, os assaltos têm sido freqüentes em casas da localidade. A TRIBUNA DO NORTE esteve no local e deu de cara com o único posto policial das imediações totalmente fechado. Segundo Paulo Roberto de Freitas, de 21 anos, raramente aparece policial no local. "Sem contar que de noite a iluminação é insuficiente. É tudo bem escuro e perigoso. O poder público precisa olhar para isso também", disse. O mesmo alegou Angela Maria de Oliveira, de 34 anos. A comerciante alega que o policiamento só é sentido durante o veraneio e mesmo assim muito de leve. "Não tem muito suporte, mas o pouco que vem já ajuda", completou. Na comunidade de Coqueirinhos, os assaltos são corriqueiros e os comerciantes já se adaptaram em horários específicos para evitar a ação de criminosos. "Não abro aos domingo à noite. É perigoso", disse Danilo Sousa, de 25 anos. Há um mês com o comércio instalado em Coqueirinhos, Danilo relembra que o dono anterior sofreu assaltos frequentes e que por esse motivo desistiu do negócio. "Eu comprei o ponto. Estou arriscando bastante. Ainda não fui assaltado, nem quero ser", concluiu.

Onda de assaltos assusta população
A onda de assaltos vem atingindo os moradores de São Miguel do Gostoso. Dos mais abastados aos mais simples, na boca de todos há apenas uma cobrança: mais segurança. A dona de uma pousada, que preferiu não se identificar, teve o seu estabelecimento alvo de assalto no último fim de semana. Vários chalés foram invadidos e pertences de turistas foram subtraídos. "Isso afugenta o turismo. Estou pensando, seriamente, em desistir desse negócio aqui em Gostoso. Está se tornando perigoso", confessou. Uma moradora, Iara Matos dos Santos, de 24 anos, disse que a onda de violência tem aumentado bastante com o passar dos anos. "Eles (os bandidos) sabem que não temos polícia e que há turistas na região. É um prato cheio para quem quer sair bem sucedido num assalto", disse. Iara disse também que até pouco tempo era possível dormir até mesmo de porta aberta na cidade. Hoje, é perigoso ficar conversando depois das 21h na calçada de casa. Além disso, o trânsito preocupa. Veículos, como motos e bugues, trafegam perigosamente ao longo da praia, com risco aos banhistas.
TRIBUNA DO NORTE

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