SÃO PAULO: BANDIDOS DÃO PRAZO PARA EXECUÇÃO DE POLICIAIS DE DENTRO DO PRESÍDIO


Na semana em que uma nova onda de violência assustou a população de São Paulo, o Fantástico apresenta gravações exclusivas que mostram criminosos ordenando ataques à Polícia Militar. Os bandidos determinam até um prazo para o assassinato de PMs. 

“Tem um ‘salve’ para passar aqui”, diz um bandido em uma conversa grampeada. 

Na gíria do crime, ‘salve’ significa um comunicado de uma quadrilha para criminosos que estão presos e também para os que estão nas ruas. 

Gravações obtidas pelo Fantástico revelam que um desses ‘salves’, enviado em agosto passado, era para matar policiais. 

“Se eles ‘pegar’ um de nós, na covardia, cai dois deles”, fala um homem em uma conversa grampeada 

“Então, já era, é isso que eu gosto”, responde outro. 

Segundo investigações da Polícia Federal, do Ministério Público e da Polícia Civil paulista, essa ordem está diretamente relacionada à recente onda de violência em São Paulo. 

Os criminosos dão até prazo para a execução dos policiais. 

“Fica determinado o prazo de dez dias para ser concluída a cobrança”, institui um deles. 

Em 3 de outubro passado, câmeras de segurança registraram a execução do soldado Fábio de Sá, em São Vicente, litoral paulista. 

Esta é a primeira vez que a mulher dele fala sobre o assassinato. 

“Uma pessoa honesta, trabalhadora, pai de família, indo embora só por causa de uma profissão”, descreveu. 

Nos dois dias seguintes à morte do policial, aconteceram 11 assassinatos na Baixada Santista. Em nenhum desses a vítima era da PM. Os atiradores ainda não foram identificados. Investigações apuram se existe um grupo de extermínio na região, formado por policiais. 

Depois dessa sequência de crimes, mais uma morte de um PM, desta vez no dia 7 de outubro, em Santos. A vítima foi o sargento Marcelo Fukuhara. 

Há cerca de um mês, segundo a família, ele se envolveu em uma operação em que três rapazes foram mortos. Na versão da polícia, houve troca de tiros. 

Ao Fantástico, a mulher do sargento, Rosana Gonçalves, disse que bandidos foram flagrados em telefonemas planejando a morte dele. 

“Apareceu uma história assim: o japonês, o anjo da guarda dele é forte, mas uma hora ele vai dormir”, contou ela. 

Ela conta que os superiores sabiam das ameaças, mas nenhuma providência foi tomada. “Nunca, formalmente, meu marido foi escoltado. Eu espero que os comandantes honrem a farda que vestem, que eles busquem quem tirou a vida do meu marido.” 

Um dia depois da morte do sargento Fukuhara, o alvo foi o soldado Hélio de Barros, assassinado em Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo. 

Em menos de cinco horas, em um raio de dois quilômetros, outras sete pessoas foram mortas. 

“De um lado, tem uma maior capacidade do estado na repressão do delito. Do outro lado, infelizmente, uma resistência por parte dessa delinquência. A população pode e deve permanecer tranqüila, porque haverá aplicação da lei”, afirma o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Márcio Elias Rosa. 

O Ministério Público e as polícias Civil e Federal investigam a facção que age dentro e fora dos presídios paulistas. 

Em escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, integrantes desse bando declararam guerra contra a PM em uma conferência, com vários criminosos, em agosto passado. Um suspeito de chefiar a quadrilha do lado de fora das cadeias leu uma mensagem: 

“Em cima das execuções covardes realizadas pelos policiais militares, partindo diretamente da Rota, a resposta será à altura, pois sangue derramado se cobra do mesmo modo”. 

Antes desse "salve geral", a ação da Rota com o maior número de mortes, em 2012, tinha acontecido em maio, na zona leste de São Paulo. Seis homens morreram, segundo a versão da polícia, em uma troca de tiros, mas uma testemunha disse ter presenciado um desses suspeitos levar chutes e ser executado. Três policiais estão presos, acusados dessa morte. 

“O que nós devemos fazer é investigar, identificar, prender, processar essas pessoas e não matá-las”, defendeu o promotor de Justiça Roberto Wider. 

A mensagem da quadrilha tem a matemática do crime. A cada comparsa morto, chamado de "irmão", dois policiais devem ser executados. 

“A partir dessa data, oito de agosto de 2012, foi determinado como missão cobrar a morte do irmão à altura, executando dois policiais da mesma corporação que cometeu o ato da covardia”, disse um bandido em uma conversa grampeada. 

E se o prazo de dez dias para matar os PMs não for cumprido... 

“Caso não for tomada atitude nesse prazo e cobrada a morte do irmão, caberá punição rígida. Boa sorte para todos”, falou um criminoso. 

As escutas telefônicas indicam que a ordem para matar policiais militares tem que ser repassada para o maior número possível de criminosos, em várias partes do estado. Assim mostra uma das conversas:

“49 já pegou o salve”. 

“Entendeu tudo. O salve é tenebroso”. 

Mês passado, em Santo André, Grande São Paulo, a polícia encontrou explosivos com dois integrantes da quadrilha. Eles levavam o seguinte comunicado: "tem que matar os ‘botas’. Deve usar bombas e armas pesadas. Sem dó". 

‘Bota’ significa Policial Militar. 

“A diligência foi realizada pela Polícia Militar e isso foi encaminhado para a Polícia Civil, foi lavrado o flagrante. As duas corporações da polícia têm conhecimento desse recado da facção criminosa”, afirmou Wider. 

Segundo as investigações, um grupo de criminosos obedeceu às ordens da quadrilha e matou dois PMs do interior do estado, em setembro. 

Os assassinos falam em código, como mostra a conversa: 

“Você sabe se o pessoal de Araraquara, o irmão lá, alugou a casa?”. 

“Não”. 

Policiais federais, policiais civis e promotores que escutaram mais de 100 horas de gravações não têm duvida: "alugar uma casa" quer dizer "matar um policial". 

De acordo com as investigações, em 13 de setembro, um criminoso da região de Araraquara avisou que a morte de um PM estava próxima: 

“O pessoal falou que entre hoje e amanhã, vai alugar”. 

No dia 14, em São Carlos, o soldado Marco Aurélio de Santi foi assassinado. No dia seguinte, na vizinha Araraquara, bandidos executaram o sargento Adriano Simões da Silva. Segundo as investigações, os assassinatos foram confirmados por telefone. 

“A casa foi alugada mesmo?”. 

“Foi, foi”. 

O Fantástico procurou o governo do estado e a Secretaria de Segurança Pública para falar sobre as gravações, mas eles não quiseram se pronunciar. 

Durante a semana, o governador e o secretário deram entrevistas sobre a recente onda de violência. 

“Fica muito cômodo debitar tudo a uma facção criminosa, mas na realidade o crime é muito bem organizado. Nós estamos combatendo, e isso está causando uma série de preocupação para eles. Há essa revolta, há um oportunismo. Pode fazer acerto de contas e debitar na polícia esse momento que estamos passando”, disse o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Antônio Ferreira Pinto. 

“A morte de policiais é uma forma de o crime intimidar o estado, e o estado não vai ser intimidado”, afirmou o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. 

Cinco mil policiais que trabalhavam em serviços burocráticos ou estavam participando de cursos foram para ruas do estado de São Paulo para reforçar a segurança. 

A família de uma mulher casada com um PM adotou medidas para se proteger. 

“A gente não pode mais sair com os filhos, que está propenso a gente ser alvejado por esses criminosos. A gente não pode falar que o nosso esposo é policial. A gente vive escondido. Apesar disso, ele não pensa em abandonar a profissão. Mesmo indignado, ele vai continuar”, disse ela.
GLOBO

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