MACAÍBA / SOLAR FERREIRO TORTO: O DESCASO CONTINUA, O ESQUECIMENTO PERSEGUE

Mais um retrato da cultura que remete a história em solo potiguar.

O engenho do Ferreiro Torto está entregue às traças e em processo de ruínas.

De acordo com os relatos históricos, foi o 2° engenho de cana-de-açúcar a ser erguido no RN. Localizado no município de Macaíba e distante 18 km de Natal, o Ferreiro Torto transformou-se em museu em 1994, quando foi tombado como patrimônio de engenho do Potengi, pois o rio do mesmo nome passa ao lado do engenho.

Paulo em mão na sua última reportagem como colaborador desta coluna, o repórter Heldon Simões encontrou apenas um lugar vazio. Durante o tempo em que percorreu o lugar, o silêncio era quebrado apenas pelo doce cantar dos pássaros.

Nenhum funcionário sequer para orientar.

Na guarita, o portão de acesso estava aberto, sem proteção alguma.


Dentro das terras do antigo engenho Ferreiro Torto, uma imensidão verde, aparentemente bem cuidado.

Porém, as portas fechadas do Solar e a ausência de alguém que pudesse justificar o vazio implicam no obvio: mais um patrimônio está abandonado.

Na fachada, rastros de cupim nas portas representam uma séria ameaça, já que o piso superior é em madeira, como também boa parte da mobília.

O mofo também está presente em diversas partes. Além disso, o vidro de uma janela está quebrado e a pintura gasta começa a apresentar falhas.

No caminho até o Solar, uma pista foi montada para aula pratica de auto escola, o que reforça o abandono.

Por telefone, uma funcionária garantiu que o Solar funciona diariamente das 8h às 12h, com a presença de um historiador, maaassss…a equipe da coluna chegou às 10h30 e o solar estava fechado.

A lenda conta que a filha do senhor do engenho se apaixonou por um escravo. Esse assunto já era notícia do engenho até que um dia o pai viu os dois conversando. Então, resolveu agir rapidamente, pegou uma arma para matar o escravo, mas quando atirou, sua filha se botou na frente e o pai acabou matando-a. A ira se misturou ao pânico, convocou os capitães-do-mato e ordenou que o enterrassem o escravo vivo.

História do texto extraído do Blog História e Genealogia, de autoria do historiador Anderson Tavares, membro do Instituto Pró-Memória de Macaíba, do Centro Norte-Rio-grandense do Rio de Janeiro e da Academia Macaibense de Letras.

Em 1847, o Cel. Estevão Moura havia herdado o engenho Ferreiro Torto e naquele mesmo ano demoliu a antiga construção térrea do sogro e fez erguer com base em planta de sua autoria o confortável e elegante palacete, moldado em estilo colonial português, uma preferência do construtor utilizado em outros prédios que lhe pertenciam, como o bonito solar Caxangá, antiga fazenda Barra.

Trata-se de um prédio monumental, com linhas sóbrias e elegantes. Apresenta partido de planta quadrangular, desenvolvido em dois pavimentos. Possui uma bela composição de cobertura em varias águas, cujos beirais são arrematados por frisos e cornijas.

Ao tempo em que foi erguido era provido de água encanada, esgotos, varandas, forros, vidraças e um santuário, tendo os dormitórios no segundo pavimento, cujo conforto não tinha rival nem nos edifícios da capital da província.

Belíssimo jardim em estilo francês foi construído na frente do casarão, onde outrora foi o patamar da casa ao tempo da invasão holandesa. No inicio do jardim, ficava o pelourinho, temor dos escravos quando dos malfeitos domésticos.

O pelourinho foi retirado definitivamente da frente da casa depois da morte de dona Maria Rosa do Rego Barros de Moura, senhora do engenho, cujas crueldades cometidas contra os escravos viraram lendas que extrapolaram as fronteiras estaduais.

O Solar Ferreiro Torto, como residência senhorial, possuía muitos esconderijos, sobre os quais depõe o escritor José Moreira Brandão Castelo Branco Sobrinho, bisneto do cel. Estevão: “Não se deve olvidar que no palacete havia esconderijos; um na parte posterior do sobrado, disseminado por uma janela apenas desenhada pela parte externa, com relevos e pinturas indispensáveis a guardar a harmonia das esquadrias, e outro no forro da escada, que conduzia ao segundo pavimento, disfarçados de tal forma que pessoas estranhas não conseguiriam descobri-los”.

A propósito, conta-se que devido a vários processos a que submeteram o dito coronel Estevão por injunções políticas, foi ele procurado por agentes policiais ou judiciários em sua residência de ferreiro Torto e que apesar de se mostrar aos mesmos numa das sacadas do sobrado e facultando-lhes a entrada, os oficiais de justiça por mais que o procurassem nas varias dependências da casa não o encontravam.

Além desses esconderijos, havia o famoso túnel que ligava o casarão ao porto do engenho, e que foi construído pelo coronel Joaquim José do Rego Barros, partícipe dos tempos atribulados da revolução de 1817.

Na posse de Estevão Moura, o engenho Ferreiro Torto vislumbrou tertúlias memoráveis, visitas ilustres de presidentes da província e dignitários do império, com banquetes seguidos de bailes memoráveis. Amigo da boa mesa, a província toda conhecia o modo fidalgo com que o coronel tratava seus hospedes, fidalguia herdada por todos os seus descendentes diretos, sobre os quais, assevera mestre Câmara Cascudo: “todos os seus descendentes, foram fieis ao signo da hospitalidade generosa, completa, ampla, inimitável”.

Com o falecimento do Cel. Estevão Moura, o engenho Ferreiro Torto coube no espólio para a sua filha mais nova dona Isabel Cândida de Moura Chaves, casada com o Dr. Francisco Clementino de Vasconcelos Chaves, pais do jurista Dr. João Chaves, nascido na residência em 1875.

D. Isabel Cândida vendeu a propriedade em 1900 para sua sobrinha dona Maria Suzana Teixeira de Moura, que na década de 1920 transferiu o antigo engenho para o senhor Francisco Coelho e deste para o senhor Bruno Pereira que se desfez da fazenda na década de 30, vendendo o imóvel para a Amélia Duarte Machado, que desde então manteve moradores na fazenda até que em 1978 as terras foram desapropriadas pela prefeitura de Macaíba, na gestão Valério Mesquita, como patrimônio histórico, sendo transformado em museu de Arte Sacra, mantido pela Fundação José Augusto que tombou e restaurou o antigo palacete colonial.

Depois de funcionar como sede da prefeitura da Macaíba entre os anos de 1983 a 1989, foi transformado em museu municipal na gestão Odiléia Mércia Mesquita. Posteriormente fechado, foi reaberto como museu regional na gestão Mônica Nóbrega Dantas. Novamente fechado, e após sofrer assaltos e depredações, foi reinaugurado como Complexo Turístico e Cultural Solar Ferreiro Torto, em abril de 2003, durante a gestão do prefeito Fernando Cunha Lima Bezerra, apresentando uma coleção de fotografias antigas da cidade da Macaíba e de seus filhos que se destacaram nos mais variados segmentos sociais. As fotos foram doações de Rayanne Magalhães (descendente do Cel. Estevão), do historiador Anderson Tavares e do memorialista José Inácio de Souza Neto que dá nome a uma das salas de exposição.

No projeto original do complexo constava ainda, duas trilhas ecológicas e um passeio de barco pelo rio Jundiaí, partindo do antigo porto de Ferreiro Torto. O lugar é propicio para aliar história e meio ambiente em um terreno de seis hectares coberto de resquícios de Mata Atlântica, pequena faixa de terra que outrora abrangia municípios inteiros do RN, visto ter sido o engenho Ferreiro Torto oriundo das antigas sesmarias coloniais.

Um comentário:

  1. Uma pena , um belo local para meditar e estudar , hoje server para aprendizes aprender a dirigir sem a minima vigilancia.

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