VIOLÊNCIA DAS RUAS ECOA NAS REDES SOCIAIS

Cada vez mais comuns e com maior repercussão, os relatos da insegurança ganham voz no Twitter e Facebook.

O relato que ilustra essa página de O Poti/Diário de Natal, logo ao lado, foi escrito pela jornalista Zhamara Mettuza. Ela usou uma rede social para compartilhar com seus seguidores um drama que vivenciou na noite fria de terça-feira, 13 de fevereiro. Naquela noite Zhamara diz que "nasceu de novo". Ela chegou do trabalho, tomou banho e levou sua cachorrinha poodle para passear, como faz costumeiramente. Conta a vítima: "Não costumava levar o celular, mas um amigo ficou de ligar e atendi o telefone em uma área residencial, próximo à esquina de uma rua perto da minha casa. Estava distraída. De repente percebi aquele cara com capacete. Alto, magro, de moletom e calça jeans. Ele parou a moto do meu lado".

Durou apenas dois ou três minutos, mas foi uma ação violenta. O homem agiu com rispidez, abordou Zhamara insistindo que queria dinheiro, celular e tudo mais que ela tivesse. Não gritava, mas era violento. Quem gritou foi Zhamara. Gritou muito. A cachorrinha latia sem parar. O homem ficou assustado. A arma falhou. A poodle não parava de latir. Algumas pessoas observavam a cena, impossibilitadas de agir sob pena de tomar um tiro no peito ou na testa. Acuado, o assaltante agrediu Zhamara. Atirou uma, duas, três vezes. "Deu três coronhadas na minha cabeça. Pingava sangue na minha mão. Ele parecia aflito com os latidos dela [cachorrinha]. Eu também estava atônita. Sabia do perigo, mas não parava de gritar feito uma louca", conta a jornalista, que ao fim entregou o celular e viu seu algoz dobrar a esquina com a moto. Conforme relatou no Twitter, Zhamara foi acudida e voltou pra casa.

Ser assaltado parece algo corriqueiro. A forma violenta da ocorrência com Zhamara Metusa não. Após perceber que sangrava muito por causa da coronhada na cabeça, os familiares a levaram para o hospital. Tomou quatro pontos. Apesar do susto, ela conta que assim que pôde descreveu tudo no Twitter. Foi o desabafo, seguido de centenas de recados de seus amigos, lhe prestando solidariedade. As redes sociais hoje se tornaram um reduto de informações prestadas por pessoas conectadas, e não poderia deixar de ser também um grito de socorro de problemas sociais como a violência urbana de roubos, assaltos e homicídios que assustam a população.

Os números são subnotificados, mas ultimamente, o noticiário policial da capital e de várias cidades do interior do Rio Grande do Norte ganhou novos depoimentos. Fuga de quase 50 pessoas no sistema penitenciário, mais de 30 assaltos a ônibus em um mês, dezenas de carros roubados, roubos a agências bancárias, shoppings, supermercados, lotéricas. Tudo se viu e tudo se leu sobre nas redes sociais mais conhecidas e utilizadas: Twitter, Facebook, Orkut. Fontes antes não tidas como oficiais agora ganham status de depoimentos verdadeiros. Os sites se tornaram tão úteis (ou inúteis, quando o relato da ocorrência não passa de boato) que tanto a imprensa escrita, falada e televisionada se utiliza deles, assim como o fazem as autoridades policiais. Ir à frente do computador, relatar furtos e roubo de carros, assaltos, fuga em massa de delegacias e presídios, batidas e acidentes de trânsito também se tornou algo comum.

A insegurança seria maior que a realidade? "Não", diz a professora Ana Cecília Aragão Gomes, que leciona Opinião Pública e Mídia no curso de Comunicação Social da Universidade Potiguar (UnP) e acha que o excesso de relatos vistos nas redes sociais após algum acontecimento de insegurança na cidade é um fenômeno novo e que modifica a produção de sentido das informações. "São pessoas comuns noticiando o que acontece em seu cotidiano. No momento em que se começa a ver e ouvir tudo aquilo, os relatos de violência ganham também as páginas dos jornais tradicionais e passam a demonstrar que cresce o sentimento de insegurança entre as pessoas. Uma insegurança construída a partir de mensagens, discursos, narrativas de um meio - a internet, que tem reflexo no mundo real", explica.

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