ALCAÇUZ REVIVE LANCES DO ANTIGO CALDEIRÃO DO DIABO

A maior penitenciária estadual do Rio Grande do Norte não é mais um modelo de segurança máxima. Treze anos se passaram desde a inauguração da construção em Nísia Floresta e as histórias de violências no interior da unidade começam a se agravar. Brigas, decaptações e mortes por armas de fogo passaram a fazer parte da rotina, resgatando lances do antigo Caldeirão do Diabo.

O que acontece em Alcaçuz? Para responder a essa pergunta, a equipe do Portal BO passou um dia dentro do presídio, acompanhando de perto a rotina. De cara, foi possível observar a insatisfação dos agentes penitenciários. A maioria reclama da falta de condições de trabalho e estrutura para dar conta dos mais de 700 presos.


Para se ter uma ideia, os agentes dispõem apenas de dois revólveres velhos, duas espingardas calibre 12 e coletes vencidos. Para se proteger, eles se veem obrigados a comprar pistolas com recursos próprios. A situação precária não para por ai. A unidade também carece de automóveis. Um dos agentes conta que em caso de doenças, os presos são conduzidos em veículos particulares.

“Os agentes é que estão dando condições de trabalho ao Estado, quando deveria ser ao contrário”, diz um dos agentes. Outro deles fala: “Isso aqui é o quintal, onde o governo esconde o lixo. Só estão investindo na Polícia Militar porque é como se fosse a sala de estar, é o que as pessoas veem na rua. Já as penitenciárias estão abandonadas, porque ninguém vem aqui ver”.

O sentimento de abandono também é sentido pelos presos, que ao perceberem a presença de uma equipe de reportagem começaram a gritar e reclamar. Como de costume, falaram mal da alimentação, mas também destacaram a existência de uma fossa aberta no meio de um dos pavilhões.

Diante da situação degradante, os agentes chegam a temer ações mais fortes por parte dos presos. No Pavilhão 1, por exemplo, comenta-se que existem pelo menos duas armas escondidas entre os presos. “Não temos como fazer uma revista lá com poucos agentes e sem equipamento. É muito arriscado”, revela um dos agentes.

Durante o dia, os agentes penitenciários ainda conseguem entrar no Pavilhão 1. O Portal BO acompanhou uma dessas entradas para retirada de um preso. O local está totalmente depredado e, realmente, vulnerável a uma rebelião. Em cada uma das celas existem buracos, por onde os presos conseguem sair à noite e circular livremente pelos corredores.

Por esse motivo, a sensação que se tem é de que a qualquer momento eles podem promover uma grande rebelião ou fuga em massa. Além disso, o risco de acerto de contas entre os próprios presos é constante. Durante a presença do Portal BO na recepção de Alcaçuz, um detento que havia sido agredido por outro detento conversava com a esposa.

Ele apresentava marcas de espancamento no rosto e nos braços. O diretor da penitenciária, Wellington Marques, comenta que esse tipo de situação foge do controle dos agentes. Mesmo assim, a direção adota algumas medidas para impedir conflito entre presos inimigos.

Ex-policiais militares, por exemplo, não podem ficar dentro de pavilhões. Sendo assim, eles acabam dormindo onde funciona o Setor Médico, que, na verdade, foi adaptado para comportar vários presos. Além dos ex-policiais militares, as celas do Setor Médico abrigam presos responsáveis por crimes de grande repercussão, como Osvaldo Pereira Aguiar, condenado pela morte e esquartejamento da menina Maisla Mariano.

“Ficar responsável pela custódia de ex-policiais militares é uma preocupação que não deveríamos ter. Era pra termos um local especifico para esse tipo de preso. Sempre encontramos dificuldades para abrigar um ex-policial e manter a ordem dentro do presídio”, ressalta o diretor.

Sobre a reestruturação da unidade, Wellington Marques informa: “o secretário de Justiça, Thiago Cortez, fez uma licitação para conseguir armas. No entanto, isso depende da burocracia do governo e isso é muito difícil”. Atualmente, o presídio não dispõe de veículo e o diretor resolve os problemas da unidade no próprio carro.

Portal BO

Um comentário:

  1. O Presídio de Alcaçuz localizado no município de Nizia Floresta foi criado como a solução para a questão carcerária do RN e segundo os gestores da época seguiu os moldes dos presídios norte americanos.

    A violência gera a superlotação dos presídios brasileiros, com raríssimas exceções se transformaram em um depósito cruel de pessoas, com as condições de sobrevivência piores possíveis, que por sua vez, e que por mais lamentável que seja admitir, além de não recuperarem, acabam por inserir de uma vez por todas os detentos no mundo da criminalidade, motivados pela revolta de serem submetido a um sistema prisional desumano, onde as cadeias se tornaram fábricas de criminosos.

    Isso evidencia a urgência em se tomar medidas de contenção da violência, e também dos gastos com essa população.

    É preciso mudar essa realidade se quisermos viver em uma sociedade segura, e se quisermos garantir isso também às gerações vindouras.

    A resolução de todo problema se inicia pela conscientização social da existência dele. É preciso, portanto, que a sociedade auxilie, no sentido de se mobilizar e cobrar a criação e efetivação de políticas públicas direcionadas a este fim, com a missão de resolver esta questão. É preciso dizer também que o problema da violência é um problema social, e como tal, demanda soluções de ordem social, e não individualista. Toda a população precisa se envolver, não só quem vive em comunidades consideradas pelas autoridades da área da segurança pública, como áreas de instabilidade, mas também, quem mora em um condomínio luxuoso, e que por isso que se julga seguro, mas que nem por isso, está livre se ser assaltado ou até mesmo seqüestrado. A violência, tal como uma epidemia, não se concentra em um só lugar, ela se dissemina em todos os sentidos e direções, e para contê-la, é necessário o engajamento de toda a sociedade.

    Como tudo neste país, não há avanço significativo para os problemas sociais existentes e que incomodam e prejudicam a paz da sociedade. O resultado é externado pelos próprios profissionais desse presídio, vejamos:

    "Caro Jacson … estou lhe encaminhando este email, para que vc como sempre atento a área jornalistica esclareça, como por exemplo, a situação hoje ocorrida em alcaçuz que por falta de transporte não houve a troca da rendição, causando um transtorno enorme em pleno dia de visita intima, a Coordenação Penitenciária(COAPE), alega não ter obrigação sobre o transporte dos agentes para Alcaçuz, porem vc bem sabe que desde sua fundação, sempre houve esse transporte … tinhamos o ônibus da Empresa Glautur responsável pelo transporte dos agentes e dos policiais das guaritas, que creio ter parado de prestar este serviço por falta de pagamento pelo estado, nós tinhamos em Alcaçuz 03 (três) viaturas, duas Ducatos e uma Parati emprestada pela PM, que passaram a substituir a Glautur, todas foram retiradas de lá, … além de não termos papel para impressora, dia destes pedimos um favor a advogados que prontamente nos doaram resmas de papel oficio para a confecção de declarações e atestados de conduta para os apenados, a dias não a café nem para preso nem agente alem de feijão e outras deficiencias, …

    Peço a vc se possivel levar isto a público, sem mencionar meu nome claro, nos ajudaria muito”.

    Essa foi a tentativa de pedir socorro a imprensa por alguns profissionais, colocando a verdade para que a consciência assistencial possa ser despertada em respeito a própria população interna e externa a estrutura.

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