POLÍCIA NÃO CONSEGUE DESVENDAR CHACINA

Quando a saudade bate, a lembrança castiga. A voz falha. As mãos tremem. Dona Severina Soares de Andrade ainda acha difícil falar no caso, mas considera o melhor para buscar justiça. O filho de 23 anos foi assassinado a tiros no dia 7 de janeiro de 2009. Dois anos e seis meses depois, a polícia não conseguiu encontrar e responsabilizar os autores. Outros três jovens foram mortos durante a chacina no conjunto Vale Dourado.


O processo criminal se encontra hoje sob vistas do Ministério Público Estadual e novas diligências podem ser demandadas. Em 19 de outubro passado, o juiz Francisco de Assis Brasil Queiroz e Silva, da 3ª Vara Criminal, já havia aprovado o pedido do MP para novas buscas e colheita de provas. O caso permanece sem solução.

Dezenas de balas, muito sangue e quatro corpos estirados no chão. Não houve tempo para socorrer os jovens João Paulo Moreira da Silva, 25 anos, João Maria de Oliveira, 28, Gilberto Andrade Paulo da Costa, 25, e de Daniel Victor Silva Lima de Mesquita, 18.

Inicialmente sob responsabilidade da 9ª Delegacia de Polícia, a cargo do delegado Francisco Jodelcir Pinheiro, o inquérito foi repassado posteriormente para Delegacia Especializada de Homicídios. A última movimentação registrada no website do Tribunal de Justiça do Estado data de 15 de março deste ano.

As famílias resistem ao aparente desprezo das autoridades. Na casa localizada na travessa Germano Benigno, no Vale Dourado, a pensionista Severina Soares, 60 anos, diz não ter medo de mostrar a cara e cobrar providências. "Se os quatros fossem filhos de gente rica, queria ver não resolver bem rapidinho", protestou.

A mulher balança as pernas nervosamente e conta que não consegue esquecer da presença do filho na casa. "Quando fico só, vêm as lembranças. Ainda traz muito sofrimento".

Não muito longe da travessa, fica a casa do agente administrativo Joaquim Moreira da Silva, 59. O filho, João Paulo Moreira da Silva, foi outra vítima da chacina. Segundo ele, João era uma pessoa de bem e não tinha inimigo e envolvimento com drogas.

Ele conta que o último contato feito pela polícia ocorreu há seis meses. "Em janeiro, o delegado Roberto Andrade nos procurou. Fez novas perguntas e nos disse para ficar atento. Mas ainda não resolveu nada. Quero ver os responsáveis na cadeia", disse Moreira.

Relembrando a história em 2009, os familiares não demoraram muito para entrar em prantos. "Eles não podem matar e ficar por isso mesmo. Tem que resolver!", emociona-se Severina. Outros parentes não fazem questão em tocar novamente na ferida.

Dona Joana, mãe de Daniel Victor Silva Lima Mesquita, recebe a equipe de reportagem apenas com a cabeça para fora da porta. Assustada, as mãos tremem quando a primeira palavra relativa ao homicídio do filho é pronunciada. "Não quero falar nada", diz em uma voz trêmula.

Com um pouco mais de insistência, ela conta que o crime não foi resolvido e que tanto a polícia quanto a Justiça não fizeram contato recentemente. Joana fecha a porta já com as mãos na cabeça temendo a nova enxurrada de pensamentos negativos.

Cada equipe investiga 100 casos

É para investigar mais de 1 mil casos pendentes de homicídios anteriores ao ano de 2007, que a polícia judiciária da Força Nacional está no Etado. As três equipes coordenadas por três delegados está, cada uma, responsável por cerca de 100 inquéritos.

No prazo de 90 dias em que as equipes estarão no RN, haverá uma nova "rodada" de recebimento de inquéritos, com o objetivo de finalizar os trabalhos.

Em contato com a reportagem na manhã de ontem, o delegado geral da Polícia Civil, Fábio Rogério, disse não poder esclarecer os critérios de seleção dos primeiros casos. Da mesma forma, negou o acesso aos documentos com os quais os delegados começaram a trabalhar durante esta semana.

"Quando tivermos o resultado, ele será divulgado. Dizer qualquer coisa agora pode atrapalhar o andamento do trabalho", declarou Rogério.

Investigação

A equipe da Força Nacional pode sair de Natal daqui a 90 dias com a volta já programada. Ocorre que o Instituto Técnico-científico de Polícia (Itep) já registrou 195 homicídios somente nos cinco primeiros meses do ano, de acordo com dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública e Defesa Social. Alguns deles recentes, ainda não tiveram os autores apontados. Em entrevista na semana passada, o promotor de Justiça Fernando Vasconcelos havia estipulado em 10% a porcentagem de resolução dessas mortes.

Como exemplo, as mortes do agente de trânsito Kleidne Varela, em Nova Parnamirim, e do advogado Anderson Miguel da Silva, em Lagoa Nova.

Entre 2007 e 2011, são inúmeros os casos que podem ser citados. Dentre eles, destaca-se o da adolescente Maria Luiza, torturada e assassinada em abril de 2009. 

Macaíba

Em março de 2010, quatro chineses foram assassinados em Macaíba. No mês de abril, a investigação passou a ser comandada por Sheila Freitas, da Divisão Especializada em Investigação e Combate ao Crime Organizado (Deicor).

Bate-papo

»Wendell Bethoven, promotor de Justiça

Como o trabalho do Ministério Público se torna prejudicado quando existe problemas na investigação policial?

Prejudica quase que completamente. Muitos arquivos chegam a ser arquivados por falta de provas. A solução é, muita vezes, remeter novamente às delegacias distritais para novas diligências. No entanto, nem sempre isso é cumprido dado a carga de trabalho existente lá.

O que fazer nessa situação?

Podemos remeter diretamente à Delegacia Geral e ser encaminhado para a Delegacia Especializada de Homicídios.

Como o senhor prevê a eficácia do trabalho da Força Nacional, através da Polícia Judiciária, no Rio Grande do Norte?

Não vai produzir resultado nenhum. Talvez se a equipe fosse destinada a uma cidade pequena, como Caicó, resolvesse algo. Se conseguir resolver, vai expor uma enorme deficiência no trabalho de 140 delegados. Além disso, as equipes não conhecem as peculiaridades locais. Sou cético quanto a iniciativa.

A equipe de delegados existentes no Rio Grande do Norte poderia ser melhor aproveitada?

Talvez se os delegados que hoje ocupam funções burocráticas voltassem a trabalhar nas ruas, a investigação ocorresse com maior eficiência. Hoje, tem muito pessoal qualificado dentro de gabinete.

Por que crimes como esse dos jovens no Vale Dourado levam tanto tempo para ser elucidado?

Crimes como esse de chacina têm características de participação de grupos de extermínio. Demanda uma investigação complexa e muitas vezes acaba nas mãos do pessoal da Delegacia Especializada de Homicídios. A equipe é boa, qualificada, mas trabalha com um volume alto de inquéritos.

Fonte: Tribuna do Norte

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